João Palhinha foi eleito o melhor jogador do Benfica-Estoril na estreia, recebeu uma enorme ovação quando entrou e criou uma ligação imediata às bancadas, mas Marco Silva recusou transformar o entusiasmo numa avaliação definitiva. O treinador viu aquilo que o médio já consegue acrescentar e, ao mesmo tempo, aquilo que ainda falta integrar.
Palhinha nem sequer deveria ter jogado tanto.
Enzo Barrenechea começou como médio mais recuado e estava a realizar uma exibição positiva quando dois contactos o deixaram condicionado. A substituição aos 30 minutos antecipou uma estreia que estava preparada para acontecer de forma mais gradual.
«Não esperávamos que fosse tão cedo», reconheceu Marco Silva.
A Luz respondeu como se estivesse à espera há muito mais tempo.
Cada intervenção do internacional português foi acompanhada pelas bancadas e um corte aos 43 minutos tornou-se o momento que melhor explicou essa identificação. Palhinha recuperou praticamente meio-campo, travou uma transição e levantou-se a celebrar. Os adeptos responderam-lhe como se a ação tivesse terminado na baliza adversária.
Marco Silva valorizou a reação, mas colocou imediatamente um travão.
O treinador considera que Palhinha ainda precisa de melhorar fisicamente e, sobretudo, compreender com maior profundidade aquilo que a equipa necessita quando tem a bola.
O médio conhece Marco Silva, mas não conhece ainda suficientemente os movimentos dos novos colegas, os posicionamentos definidos para cada corredor e os caminhos que o Benfica procura utilizar para fazer a bola avançar.
«Ainda vai ter de melhorar muito», resumiu o técnico.
Palhinha apresentou uma leitura semelhante.
Não tentou transformar a eleição de melhor em campo num ponto de chegada e definiu a estreia como o início de uma relação que quer tornar especial.
«Vou dar sempre tudo», prometeu.
Depois acrescentou: «Isto é só o começo. Sei que tenho muito ainda por mostrar, muito para conquistar.»
O médio trouxe também tranquilidade sobre Barrenechea, explicando que falou com o companheiro depois do encontro e que a primeira indicação não aponta para um problema grave.
A estreia ocupou grande parte da conversa, mas Marco Silva quis recentrar a análise naquilo que a equipa fez.
O treinador considera que o Benfica dominou o encontro praticamente do princípio ao fim e que a vitória por 2-1 foi totalmente justa.
A dificuldade nasceu da organização apresentada pelo Estoril.
A equipa visitante defendeu com cinco jogadores na última linha e, em vários momentos, acrescentou ainda mais um elemento, retirando profundidade e obrigando o Benfica a ter paciência na circulação.
Marco Silva identificou Samuel Dahl como uma das principais soluções para quebrar esse encaixe.
Com Bah muito projetado no lado contrário, Dahl aparecia como terceiro homem no corredor esquerdo e permitia ao Benfica criar uma nova linha de passe quando o bloco do Estoril já tinha sido atraído para dentro.
O treinador entende que o dinamarquês está cada vez mais próximo daquilo que lhe pede.
Também defendeu Sudakov, apesar da escassa produção direta em golos.
Marco Silva não reduz a avaliação do médio às assistências ou finalizações e considera que aquilo que apresenta durante a semana e a participação na circulação justificam a continuidade no onze, embora reconheça que uma posição tão adiantada exige números superiores.
A principal insatisfação voltou a surgir na relação entre oportunidades concedidas e golos sofridos.
O Estoril criou muito pouco e marcou numa das raras chegadas enquadradas. Marco Silva considera que essa desproporção se tem repetido e quer evitar que partidas controladas regressem emocionalmente à discussão através de um único lance.
Depois do 2-1, garante que não temeu perder os três pontos.
Percebeu apenas que o Estoril passou a acreditar mais e que as bancadas responderam elevando imediatamente o apoio à equipa.
Foi aquilo que descreveu como uma reação própria da dimensão do Benfica.
Do lado contrário, a derrota não alterou a avaliação positiva feita à resposta competitiva do Estoril.
A equipa visitante valorizou a organização, a capacidade para não desistir depois do segundo golo e o facto de ter terminado o encontro ainda à procura de uma possibilidade para chegar ao empate. Reconheceu, ao mesmo tempo, que dois golos contra um tornam o vencedor indiscutível.
As duas leituras acabam por encontrar-se num ponto.
O Benfica foi superior e mereceu ganhar.
O Estoril conseguiu tornar incómodo aquilo que, durante muito tempo, parecia resolvido.
E Palhinha precisou de apenas uma hora para perceber duas coisas sobre a nova casa.
A Luz já o reconhece.
Marco Silva ainda quer muito mais dele.















