O Benfica precisou de quase uma parte inteira para transformar domínio em vantagem e de poucos minutos no final para perceber como um jogo praticamente controlado pode voltar a tornar-se incómodo. A equipa de Marco Silva venceu o Estoril por 2-1, depois de passar largos períodos instalada no meio-campo adversário, mas acabou obrigada a proteger uma diferença mínima que esteve longe de traduzir a relação de forças.
A origem da dificuldade esteve na forma como o Estoril decidiu defender.
A equipa visitante apresentou uma linha de cinco que, em vários momentos, chegava praticamente aos seis homens, encurtou os espaços interiores e obrigou o Benfica a circular repetidamente em redor de uma estrutura muito baixa. Não procurava discutir a posse. Procurava retirar ao adversário o espaço onde essa posse pudesse tornar-se perigosa.
O Benfica estava preparado para esse cenário, mas demorou a encontrar-lhe a solução.
Bah dava largura alta pela direita e Dahl partia de uma posição mais atrasada para aparecer como terceiro homem no corredor contrário. Por dentro, Prestianni, Sudakov e Rafa procuravam receber entre linhas, mas o Estoril fechava rapidamente os caminhos para a área.
O resultado foi uma primeira meia hora de domínio territorial com mais aproximações do que ocasiões verdadeiramente limpas.
Aos 30 minutos surgiu uma alteração que não estava no plano.
Enzo Barrenechea ficou condicionado depois de dois contactos e João Palhinha teve de entrar muito antes do previsto. A estreia mudou sobretudo a intensidade do meio-campo. O internacional português começou imediatamente a encurtar transições, atacar segundas bolas e acelerar alguns passes que até então exigiam preparação maior.
A ligação às bancadas foi imediata.
Aos 43 minutos, Palhinha recuperou terreno durante uma transição do Estoril, percorreu praticamente meio-campo e fez um corte que celebrou com a mesma intensidade de um golo. A Luz respondeu-lhe da mesma maneira.
Nessa altura, o Benfica já estava em vantagem.
Aos 40 minutos, uma sequência de insistência dentro da área terminou em Pavlidis. O grego protegeu a bola, rodou em espaço curto e encontrou o canto da baliza. O lance nasceu menos de uma combinação perfeita do que da capacidade benfiquista para manter jogadores perto da área, recuperar a segunda bola e impedir que o Estoril respirasse depois do primeiro alívio.
Era o golo que o jogo vinha a pedir.
O intervalo não alterou a relação de forças e o segundo apareceu cedo.
Lenglet recebeu espaço à frente da linha defensiva, avançou sem oposição suficiente e rematou de longe para o 2-0. A escolha do central também explicou aquilo que o Benfica vinha a provocar: o Estoril estava tão concentrado em proteger a área e os corredores interiores que começava a oferecer metros a quem chegava de trás.
Com dois golos de vantagem, o encontro pareceu resolvido.
O Benfica continuou a ter bola, Prestianni manteve qualidade nas decisões e Dahl apareceu cada vez mais alto. O Estoril não abandonou, contudo, a organização para procurar desesperadamente o golo. Continuou compacto e esperou por uma oportunidade para permanecer dentro do resultado.
Ela surgiu aos 82 minutos.
Uma bola que o Benfica não conseguiu afastar definitivamente do corredor terminou em Begraoui dentro da área. O avançado protegeu, rodou perante Lenglet e bateu Samuel Soares.
O golo não alterou aquilo que tinha acontecido nos 80 minutos anteriores.
Alterou o estado emocional do jogo.
De repente, cada bola longa do Estoril passou a carregar a possibilidade do empate e a Luz percebeu que uma partida quase sempre controlada ainda podia terminar com dois pontos perdidos.
O Benfica não entrou em colapso nem se fechou dentro da própria área. Recuperou organização, voltou a circular e procurou manter o jogo longe de Samuel Soares. O Estoril ganhou crença, mas não encontrou uma oportunidade suficientemente limpa para completar a recuperação.
A diferença entre as equipas esteve precisamente aí.
O Estoril conseguiu durante muito tempo reduzir espaços e impedir que o domínio benfiquista se transformasse numa sucessão de ocasiões claras. O Benfica, porém, teve volume, paciência e jogadores suficientes dentro e à volta da área para acabar por encontrar duas soluções diferentes: Pavlidis por dentro e Lenglet de longe.
O problema foi não ter encerrado o encontro quando teve condições para fazê-lo.
Marco Silva reconheceu que a equipa criou menos situações do que em jogos anteriores, mas considerou o triunfo totalmente justo e insistiu num ponto que começa a repetir-se: os adversários precisam de muito pouco para marcar ao Benfica.
A estreia de Palhinha acrescentou outra camada ao encontro.
O médio entrou por necessidade, jogou muito mais do que estava previsto e mostrou imediatamente a agressividade que o distingue. Também mostrou que ainda precisa de compreender melhor os movimentos coletivos com bola e de ganhar ritmo dentro de uma estrutura que conhece apenas há poucos dias.
O Benfica saiu com três pontos.
Saiu também com uma advertência.
Contra um adversário tão baixo, conseguiu finalmente abrir a muralha.
Quase deixou que ela se voltasse a fechar sobre o próprio resultado.















