Famalicão e Gil Vicente passaram 90 minutos a impedir aquilo que o outro queria fazer e acabaram por impedir também o próprio jogo de crescer. Houve intensidade, duelos, pressão e disciplina posicional. Faltaram espaços, desequilíbrios e praticamente todas as situações que normalmente aproximam uma equipa do golo. O 0-0 do dérbi minhoto foi menos consequência da falta de vontade do que do excesso de encaixe.
Carlos Carvalhal ainda sofreu uma contrariedade antes do apito inicial. Tom van de Looi sentiu um problema durante o aquecimento e Marcos Peña entrou diretamente para o onze, obrigando o Famalicão a alterar a composição do meio-campo antes de o jogo começar.
A mudança não retirou aos famalicenses aquilo que pretendiam fazer.
O Famalicão assumiu mais bola, empurrou o Gil Vicente para trás e instalou-se durante largos períodos no meio-campo ofensivo. Mathias de Amorim, Rodrigo Pinheiro e Marcos Peña procuraram a baliza de fora da área, sintoma simultaneamente de iniciativa e de um problema: por dentro, o caminho estava praticamente fechado.
Luís Pinto montou o Gil Vicente com linhas próximas, coberturas permanentes e pouca distância entre meio-campo e defesa. Os famalicenses conseguiam circular à volta do bloco, mas quase nunca entrar nele.
Foi por isso que a meia distância se transformou na principal solução. Aos 39 minutos, Marcos Peña encontrou finalmente qualidade suficiente para obrigar Lucão a uma boa defesa, naquele que foi o único remate enquadrado do Famalicão em todo o encontro.
O Gil Vicente aceitou essa relação de forças.
Não precisava de ter a bola durante muito tempo para se sentir confortável e procurava aproveitar as recuperações para encontrar Joelson Fernandes e Héctor Hernández. Aos 27 minutos, Joelson conseguiu o único remate enquadrado dos visitantes na primeira parte.
Depois disso, voltou o encaixe.
Os números finais traduzem quase literalmente o tipo de jogo: 56 por cento de posse para o Famalicão, sete remates para cada equipa, apenas um enquadrado de cada lado e expected goals de 0,37 contra 0,31. Não houve uma grande ocasião desperdiçada que permita recontar o encontro através do «se». O dérbi produziu muito pouco porque as duas equipas concederam muito pouco.
Carvalhal tentou alterar esse equilíbrio na segunda parte. Roméo Beney e Óscar Aranda entraram para acrescentar criatividade, depois Leny Meyer e outras soluções aumentaram a frescura. Luís Pinto respondeu com Zé Carlos, Murilo, Mohamed Kaba e Tidjany Touré.
As substituições mudaram jogadores. Não mudaram verdadeiramente o jogo.
Sorriso foi quem mais tentou fugir ao padrão. Aos 63 minutos desenhou um remate em arco que passou sobre a baliza. Do outro lado, Mohamed Kaba ficou perto do golo aos 82, com um remate que passou junto ao poste. Foram exceções num encontro onde quase todos os ataques terminavam antes de chegar a uma posição de verdadeira vantagem.
O próprio Luís Pinto reconheceu essa realidade. Considerou o encontro «muito fechado» e «muito tático», admitiu que o Famalicão foi melhor durante a primeira parte e viu a sua equipa crescer depois do intervalo. Não conseguindo os três pontos, considerou justo somar um, sobretudo porque o Gil Vicente voltou a manter a baliza inviolada.
Carlos Carvalhal fez uma leitura aparentemente paradoxal. O Famalicão continua sem vencer, mas o treinador classificou a exibição como a melhor da época e viu nela «um passo em frente». Gostou da agressividade competitiva e da intensidade, mas reconheceu precisamente aquilo que o jogo mostrou: a vontade excessiva de conseguir finalmente a vitória retirou alguma clarividência quando era necessário escolher melhor.
Essa falta de pausa ajuda a explicar porque o Famalicão conseguiu empurrar o adversário sem verdadeiramente o desmontar.
O Gil Vicente fez o percurso inverso. Luís Pinto pediu menos exposição, manteve sempre a proteção do corredor central e aceitou sacrificar alguma ambição ofensiva para não perder o controlo. O resultado foi o terceiro jogo realizado no campeonato sem sofrer um único golo.
A arbitragem de David Silva não teve qualquer episódio determinante sobre o resultado. Houve vários amarelos num jogo fisicamente disputado, mas nenhuma grande penalidade, expulsão ou intervenção do VAR capaz de alterar a leitura da partida. João Malheiro Pinto esteve no VAR.
O empate interrompe a série perfeita do Gil Vicente, que tinha vencido os dois encontros anteriores, mas mantém os barcelenses invictos, com sete pontos e um jogo em atraso.
Para o Famalicão, a leitura é mais desconfortável. Há dois pontos em quatro jornadas e nenhuma vitória na nova era de Carlos Carvalhal. Pela primeira vez, porém, a equipa não sofreu e o treinador reconheceu no comportamento aquilo que procura construir.
O passo em frente existiu. Faltou chegar à baliza.















