O Marítimo encontrou durante meia hora exatamente o jogo de que precisava em Arouca, chegou à vantagem e ameaçou transformar a projeção ofensiva dos anfitriões numa vulnerabilidade permanente. O Arouca percebeu o problema ainda antes do intervalo, corrigiu a forma de pressionar, retirou aos madeirenses o espaço das transições e acabou por dar a volta ao resultado. O 2-1 nasceu dessa mudança mais do que de qualquer episódio isolado.
Mitchell van der Gaag foi obrigado a alterar o onze ainda antes do início. Simo Bouzaidi lesionou-se no aquecimento e Bryan Limbombe entrou para a equipa. A mudança não impediu o Marítimo de começar melhor.
Martín Tejón mostrou logo aos cinco minutos o espaço que existia para atacar. Partiu da esquerda para dentro e rematou muito perto do poste. Aos 17 obrigou Arruabarrena a nova intervenção e, mesmo quando o Arouca começou a ter mais bola e a instalar-se no meio-campo contrário, os madeirenses continuaram confortáveis com o desenho do encontro.
Era precisamente a posse arouquense que lhes abria terreno. A equipa de Vasco Seabra projetava muitos jogadores, o Marítimo recuperava e encontrava Tejón e Butzke com espaço para correr sobre uma defesa frequentemente reduzida aos dois centrais.
O Arouca também criava. Espen van Ee acertou na barra aos 12 minutos, mas Rodrigo Andrade respondeu da mesma forma aos 23. O jogo estava aberto e a ameaça existia nas duas balizas, embora por caminhos diferentes: o Arouca através da ocupação prolongada do meio-campo ofensivo, o Marítimo através da velocidade com que saía depois de recuperar.
Foi também capaz de acrescentar a bola parada. Aos 27 minutos, num canto em que a defesa do Arouca concentrou a marcação junto ao primeiro poste, Tejón apareceu livre numa zona mais distante e rematou para o 0-1.
A vantagem premiava aquilo que os madeirenses estavam a conseguir fazer ao jogo. Mas não durou até ao intervalo.
Van der Gaag identificou depois um momento aparentemente secundário como uma das origens da mudança: uma paragem permitiu ao Arouca corrigir comportamentos que estavam a deixá-lo demasiado exposto. Vasco Seabra confirmou a mesma leitura por outro caminho, admitindo que a transição defensiva tinha sido muito menos competente na primeira parte do que viria a ser na segunda.
O efeito começou ainda antes do descanso. O Arouca empurrou progressivamente o Marítimo para trás e chegou ao empate aos 44 minutos. Trezza ganhou a linha pela direita, com Danilovic a ficar no relvado e os madeirenses a reclamarem uma infração, serviu Van Ee e o remate do neerlandês sofreu um desvio antes de entrar.
Gustavo Correia validou o lance e a equipa de arbitragem não encontrou razão para anular o golo apesar dos protestos do Marítimo. O 1-1 mudou também o peso do intervalo: em vez de proteger uma vantagem construída através das transições, os madeirenses tiveram de regressar a um jogo novamente em aberto.
E foi o Arouca que regressou melhor.
A pressão tornou-se mais coordenada, o espaço anteriormente disponível para Tejón e Butzke desapareceu e o Marítimo deixou de conseguir transformar recuperações em ataques com a mesma facilidade. Aos 55 minutos, a correção coletiva encontrou tradução no marcador através de uma jogada construída com precisão: Fukui rompeu a primeira linha, Pablo Gozálbez apareceu no corredor e colocou a bola na área para Barbero cabecear para o 2-1.
Foi o terceiro golo do avançado nas primeiras quatro jornadas e a confirmação de uma alteração mais profunda no jogo. Até aí, o Marítimo tinha criado perigo sempre que encontrava campo. Depois da reviravolta, passou a ter mais dificuldade em chegar sequer à última linha.
Van der Gaag tentou mudar essa relação. Primeiro lançou Samuel Bamba por Limbombe. Mais tarde retirou Danilovic e Butzke para colocar Ayuma e Boakye, terminando praticamente com dois avançados e maior presença junto da área.
A intenção era clara, mas a consequência não apareceu. O Marítimo conseguiu empurrar jogadores para a frente, não recuperar a capacidade de os encontrar em condições favoráveis.
Vasco Seabra respondeu também a cada fase. Mansilla e Nandín refrescaram o ataque, Pedro Santos e Mateo Flores entraram quando era necessário recuperar capacidade para correr e Mario Climent reforçou a equipa nos minutos finais. O jogo partiu-se, mas as melhores situações continuaram a pertencer ao Arouca.
Nandín teve uma delas aos 75 minutos. Isolado diante de Alfonso Pastor, tentou ultrapassar o guarda-redes e caiu. Gustavo Correia considerou que não existia contacto suficiente para falta e mostrou amarelo ao avançado por simulação. Foi o outro lance de arbitragem com maior relevo numa partida em que o VAR acompanhou os episódios de maior dúvida nas áreas.
O Marítimo ainda colocou bolas na área, Paulo Henrique obrigou Arruabarrena a defender perto do fim e Van der Gaag aumentou a presença ofensiva, mas já não recuperou o perigo da primeira meia hora. Pelo contrário, o Arouca desperdiçou transições em que poderia ter fechado o resultado com maior margem.
Vasco Seabra considerou o triunfo justo porque a sua equipa acabou por criar as melhores oportunidades. Mais importante para explicar a vitória foi a razão que o próprio treinador identificou: o Arouca deixou de defender as transições como tinha defendido no início.
Van der Gaag não escondeu a derrota, mas recusou retirar dela uma leitura negativa sobre o percurso do Marítimo. Considerou que a equipa mostrou qualidade e apontou até a dimensão da celebração arouquense como reconhecimento da dificuldade imposta por um recém-promovido.
Há fundamento nas duas leituras. O Marítimo mostrou durante parte substancial da primeira parte porque chegou invicto à quarta jornada e conseguiu ser perigoso sem necessitar de controlar a bola. O Arouca mostrou algo mais decisivo: encontrou a origem do problema durante o próprio jogo e conseguiu eliminá-la.
Foi aí que a partida mudou. Tejón deixou de receber com campo, as transições desapareceram e o Marítimo passou de uma equipa capaz de ferir cada vez que recuperava a bola para uma equipa obrigada a atacar uma defesa posicionada. O Arouca ficou, então, mais perto do terceiro golo do que os madeirenses do empate.
A terceira vitória em quatro jornadas coloca os arouquenses nos nove pontos. O Marítimo fica com sete e sofre a primeira derrota desde o regresso à Liga, antes de receber o Benfica na próxima jornada.















