António Nobre e o VAR falharam no lance disciplinar que acaba por ter maior peso na leitura do FC Porto-Moreirense. Aos 17 minutos, William Gomes atingiu Francisco Domingues diretamente na face com o antebraço esquerdo e permaneceu em campo sem sequer ser sancionado com falta. Devia ter sido expulso.
A imagem é suficientemente clara para separar o lance de um contacto normal de futebol.
William chega à disputa e projeta o braço para a zona da cabeça do adversário. O antebraço acerta em cheio no rosto de Francisco Domingues numa ação grosseira, sem o controlo exigível a quem entra num duelo daquela forma.
Não é necessário conseguir entrar na cabeça do jogador e provar que decidiu previamente agredir.
A intenção subjetiva deixa de ser determinante quando a ação observável ultrapassa aquilo que pode ser aceite numa disputa de bola.
As leis distinguem precisamente o contacto normal de uma ação executada com força excessiva ou de forma a colocar em risco a segurança do adversário. Quando esse limite é ultrapassado, a sanção é a expulsão.
E quando um jogador atinge deliberadamente a cabeça ou a face de um adversário com a mão ou o braço fora de uma verdadeira disputa da bola, a própria natureza da ação coloca o lance no domínio da conduta violenta.
A qualificação técnica pode depender de se considerar que William ainda disputava efetivamente a bola ou já atuava fora dessa disputa.
A cor do cartão não muda.
Vermelho.
Reduzir o lance a uma simples entrada negligente não corresponde àquilo que as imagens mostram. Há um braço lançado diretamente à face e um impacto suficientemente grosseiro para justificar a sanção máxima.
António Nobre deixou seguir.
O assistente estava de frente para a ação e também não interveio.
O VAR permaneceu igualmente fora do lance.
O erro ganhou depois uma consequência objetiva no próprio resultado.
William Gomes continuou em campo e marcou, aos 58 minutos, o golo que completou a reviravolta e deu ao FC Porto a vitória por 2-1.
Isso não permite afirmar qual teria sido o resultado de um jogo disputado durante mais de uma hora com o FC Porto reduzido a dez jogadores.
Permite afirmar outra coisa.
O jogador que devia ter sido expulso marcou o golo da vitória.
A arbitragem entra, por isso, necessariamente na explicação do resultado.
O episódio também torna mais significativo aquilo que aconteceu no final.
Aos 86 minutos, Guilherme Liberato entrou num duelo com Victor Froholdt com o braço elevado e atingiu violentamente o dinamarquês na cabeça.
Froholdt perdeu os sentidos.
António Nobre voltou a não avaliar corretamente a gravidade da ação no momento.
Assinalou a falta, mas não mostrou inicialmente qualquer cartão.
Desta vez, o VAR interveio.
Depois de rever as imagens, o árbitro expulsou corretamente o jogador do Moreirense.
O critério disciplinar é claro: a intenção de provocar uma lesão não precisa de ser demonstrada. Liberato utilizou o braço de forma grosseira, com força e risco evidentes para a integridade física de Froholdt.
Era vermelho.
A preocupação imediata de Liberato com o adversário e a reação emocional posterior podem mostrar que não pretendia produzir aquela consequência.
Não retiram gravidade à ação.
O mesmo princípio tem de ser aplicado ao lance de William.
Uma arbitragem não pode exigir prova psicológica de uma intenção que quase nunca é demonstrável. Tem de julgar aquilo que o jogador efetivamente faz, a forma como utiliza o corpo, a força empregue, o ponto de contacto e o risco criado.
Foi precisamente isso que tornou correta a expulsão de Liberato.
E é isso que torna errada a permanência de William em campo.
A primeira parte já tinha mostrado dificuldades de António Nobre na gestão disciplinar.
Liberato ficou também sem amarelo aos 41 minutos depois de agarrar Alberto Costa por trás, de forma persistente e sem possibilidade de jogar a bola.
João Veloso foi corretamente advertido pouco depois por comportamento antidesportivo.
Também os três minutos de compensação antes do intervalo ficaram aquém das incidências de uma primeira parte com dois golos, cartões, expulsões nos bancos e uma interrupção prolongada.
Na segunda parte, Francisco Moura foi corretamente advertido ao interromper uma transição, tal como Dinis Pinto quando protestou de forma ostensiva.
Os oito minutos acrescentados no final foram adequados perante as substituições, o vermelho, a intervenção do VAR e a longa assistência a Froholdt.
Mas nenhuma dessas decisões altera o centro da avaliação.
O VAR corrigiu corretamente a expulsão de Liberato.
Falhou quando teve de avaliar William Gomes.
E a diferença é decisiva: **aos 17 minutos, William atingiu Francisco Domingues na face numa ação grosseira merecedora de vermelho; permaneceu em campo e, 41 minutos depois, marcou o golo que decidiu o jogo.**















