O Benfica precisava de uma vitória e encontrou muito mais do que isso em Rio Maior. Os encarnados esmagaram o Casa Pia por 0-7, chegaram ao intervalo com dois golos de vantagem e resolveram definitivamente o encontro com cinco golos nos primeiros 16 minutos da segunda parte. Prestianni e Rafa abriram caminho, Pavlidis transformou-o numa autoestrada com um hat-trick em sete minutos e a equipa de Marco Silva acabou a noite com a primeira vitória no campeonato, sete golos marcados e a sensação de que o seu futebol começa a ganhar uma identidade muito mais visível.
A entrada explicou boa parte do que se seguiria. Aos três minutos, Prestianni recebeu pela esquerda, procurou a baliza e contou com um desvio decisivo de David Sousa para deixar André Gomes sem hipótese. O Casa Pia ainda estava a tentar perceber como contrariar a pressão adversária e já tinha perdido a possibilidade de esperar tranquilamente pelo Benfica.
Aos 13 minutos surgiu o segundo golpe e, desta vez, a causa foi ainda mais clara. Rochinha tentou atrasar a bola, Rafa leu o lance mais depressa, antecipou-se e lançou uma transição em superioridade. Pavlidis recebeu, devolveu ao português e Rafa fez o 0-2. O erro foi o gatilho; a capacidade do Benfica para o transformar imediatamente em golo fez o resto.
O Casa Pia teve uma oportunidade para contrariar a direção do encontro. Gabi Pereira acertou no poste pouco depois e um eventual 1-2 teria devolvido instabilidade ao jogo. A bola não entrou. O Benfica manteve a margem que lhe permitia continuar a pressionar sem assumir riscos desnecessários e os gansos nunca chegaram verdadeiramente a recuperar do início.
Isso não significa que a primeira parte tenha sido irrepreensível. Os encarnados encontraram repetidamente espaço para aumentar a vantagem, mas desperdiçaram situações em que a decisão final ficou aquém do resto da jogada. Sudakov foi o exemplo mais evidente: Pavlidis isolou praticamente o ucraniano aos 35 minutos, mas este demorou a rematar, e no minuto seguinte, novamente em excelente posição, permitiu a defesa de André Gomes. Marco Silva respondeu com visível impaciência no banco.
O 0-2 ao intervalo era confortável, mas não definitivo. O próprio treinador revelou depois que pediu duas coisas no balneário: manter a baliza a zero e «matar» o jogo quando surgisse a oportunidade. A equipa regressou ao relvado como se ainda estivesse empatada.
E matou-o.
Aos 47 minutos, Rafa descobriu uma clareira e Pavlidis fez o primeiro da conta pessoal. Dois minutos depois, o grego recebeu perante João Goulart, trabalhou o lance individualmente e marcou de novo. Aos 54, uma sequência coletiva envolvendo Tomás Araújo, Rafa e Leandro Barreiro terminou no mesmo homem. Em sete minutos, Pavlidis transformou o 0-2 em 0-5.
O hat-trick não foi apenas a fotografia de uma noite particularmente feliz. Confirmou o melhor início de temporada da carreira do avançado. Pavlidis soma nove golos e duas assistências nos primeiros cinco jogos oficiais de 2026/27 e ficou sem marcar apenas na primeira partida, diante do St. Gallen, na qual ainda assistiu Rafa.
Depois desse encontro, marcou quatro vezes aos suíços na segunda mão, faturou diante do Hearts, voltou a marcar frente ao Académico de Viseu e acrescentou agora três golos ao Casa Pia. Em cinco jogos, já chegou perto de um terço dos 30 golos que apontou em cada uma das duas épocas anteriores pelo Benfica.
Os melhores arranques anteriores não atingiram este ritmo. No Willem II, em 2019/20, marcou seis golos nos seis primeiros encontros. Um ano depois conseguiu quatro nos três primeiros. Pelo AZ Alkmaar, em 2022/23, chegou aos seis golos e quatro assistências nas oito partidas iniciais. Em 2026/27, nove golos chegaram antes do sexto jogo.
Há também uma explicação coletiva. Marco Silva não descobriu que Pavlidis sabe marcar; encontrou uma forma de potenciar tudo aquilo que o avançado faz antes de chegar à finalização. O grego baixa para ligar setores, oferece apoios, participa na criação e depois ataca a área. Num Benfica que procura recuperar mais alto e colocar rapidamente vários jogadores perto da baliza contrária, essa mobilidade permite-lhe participar na construção sem desaparecer do lugar onde os jogos se decidem.
O Casa Pia sentiu isso de forma particularmente dura no recomeço. A pressão encarnada aumentou, as distâncias defensivas dos gansos começaram a desfazer-se e cada perda passou a encontrar o Benfica já preparado para atacar. A superioridade territorial da primeira parte transformou-se então numa sucessão de situações de finalização.
O sexto surgiu aos 58 minutos, num autogolo de Ofori. O jogo estava terminado, mas ainda faltava um símbolo da profundidade que Marco Silva tem agora no ataque. Jhon Durán entrou para o lugar de Pavlidis e precisou de poucos minutos para marcar o 0-7, estreando-se a marcar no campeonato português.
A partir daí, o Benfica fez aquilo que uma equipa deve fazer quando já resolveu o problema competitivo. Baixou a velocidade, distribuiu minutos e guardou energia para o compromisso europeu seguinte. Não havia qualquer razão para continuar a atacar ao mesmo ritmo: aos 61 minutos, o resultado já não estava em discussão.
O Casa Pia acabaria ainda reduzido a dez jogadores, depois de Khaly receber o segundo cartão amarelo nos descontos. Foi uma nota disciplinar tardia numa noite em que o dano estava feito muito antes.
Para o Benfica, o resultado corrige de forma violenta o 2-2 com o Académico de Viseu na jornada inaugural e termina uma sequência de três encontros sem vencer o Casa Pia. Mas mais importante do que a dimensão do marcador foi a relação entre aquilo que Marco Silva pediu e aquilo que a equipa executou: pressão alta, recuperação perto da baliza adversária, velocidade depois da perda do adversário e capacidade para transformar uma vantagem confortável num jogo definitivamente encerrado.
Pavlidis ficará como a figura inevitável. Nove golos em cinco jogos não permitem outra escolha. Mas o dado mais relevante para o Benfica talvez esteja por trás dos golos do grego: este início sugere que o melhor arranque da carreira do avançado não nasceu apenas de uma sequência individual de eficácia. Nasceu também de um modelo que começa a colocá-lo mais vezes onde ele é mais perigoso.















