Marco Silva saiu dos Barreiros com uma vitória por 3-0, mas começou a análise pelo estado do relvado e terminou-a a falar de concorrência, capacidade de adaptação e da lesão de Alexander Bah. Do outro lado, Mitchell van der Gaag encontrou no período entre os 20 minutos e o segundo golo do Benfica razões para defender que o Marítimo competiu melhor do que o resultado sugere, embora reconhecendo a falha que decidiu o jogo: chegou à área, mas não marcou.
O treinador encarnado foi particularmente duro na avaliação das condições do campo.
«É quase impossível jogar.»
Marco Silva separou a crítica do Marítimo e dirigiu-a às condições oferecidas pelo campeonato, considerando que um relvado daquele nível prejudica aquilo que o futebol português pretende mostrar.
A vitória permitiu-lhe fazê-lo sem transformar a questão numa justificação para o resultado.
Dentro do jogo, identificou uma entrada muito forte do Benfica.
A equipa marcou cedo por Leandro Barreiro, controlou territorialmente e conseguiu impor aquilo que tinha preparado até à lesão de Bah.
Foi aí que o encontro mudou.
O Marítimo passou a pressionar com dois jogadores na primeira linha e condicionou melhor João Palhinha. O Benfica começou a dividir bolas desnecessariamente, perdeu alguma segurança na construção e permitiu aos madeirenses instalar-se mais vezes no meio-campo ofensivo.
Marco Silva atribuiu essa fase sobretudo aos próprios erros.
Van der Gaag viu-a como demonstração da capacidade do Marítimo para responder.
O treinador madeirense reconheceu que a equipa demorou a reagir ao golo sofrido, mas considerou que a partir dos 20/25 minutos começou a encontrar formas de jogar e de empurrar o Benfica para trás.
Guzzo teve um papel importante nessa mudança, muitas vezes a partir do corredor direito e em combinação com Igor Julião.
A dificuldade esteve na última ação.
«Tentámos chegar à área, mas não criámos nada.»
A segunda parte começou da mesma forma.
O Marítimo entrou forte, conseguiu controlar melhor as transições encarnadas e colocou mais jogadores perto da área, mas voltou a não produzir a oportunidade que transformasse o domínio territorial em golo.
Para Van der Gaag, foi aí que passou a possibilidade de mudar o encontro.
«Naquele momento, uma equipa como a nossa precisa de marcar. Não marcámos, é preciso marcar para ganhar.»
O Benfica resistiu e Marco Silva voltou a mexer.
Schjelderup e Circati tiveram, segundo o treinador, um impacto importante na estabilização da equipa. Prestianni mudou de posição, o corredor ganhou maior segurança e Leandro Barreiro passou, durante parte da segunda metade, a jogar um pouco mais próximo de Palhinha.
O segundo golo reduziu definitivamente a margem do Marítimo.
Barreiro marcou novamente e completou o segundo bis desde que chegou ao Benfica.
O médio assumiu a importância individual sem transformar os golos no centro da própria análise.
«Ajudei muito a equipa hoje a ganhar o jogo.»
Também rejeitou a ideia de que a presença de Palhinha o tenha libertado para chegar mais vezes à área.
Marco Silva confirmou a leitura.
Garantiu que a função de Barreiro não mudou relativamente aos jogos em que Enzo ocupa a posição mais recuada e lembrou que o médio já aparecia regularmente em zonas de finalização.
Desta vez marcou.
Duas vezes.
O treinador utilizou o episódio para reforçar uma ideia mais abrangente sobre o plantel.
Não quer uma equipa com onze titulares definidos.
Quer jogadores a disputar posições e um grupo suficientemente competitivo para que as escolhas não sejam automáticas.
«Não há lugares garantidos.»
Marco Silva considera que essa concorrência interna é indispensável para uma época em que o Benfica terá sucessivos jogos e diferentes exigências.
A lesão de Bah introduz já uma dessas necessidades.
O lateral saiu na primeira parte depois de cair fora das quatro linhas e atingir a zona dos fotojornalistas. Terminou a noite com o ombro imobilizado e será submetido a exames para determinar a extensão do problema.
Marco Silva recusou antecipar um prazo de recuperação.
A entrada de Kaminski para o corredor direito também não foi improvisada.
O treinador explicou que essa função vinha a ser trabalhada e permitia manter Rafa em zonas interiores sem alterar aquilo que estava previsto para a construção ofensiva.
Do lado madeirense, Igor Julião manteve a leitura de que os três golos produziram uma diferença demasiado pesada.
O lateral reconheceu a qualidade e o investimento do Benfica, mas valorizou a coragem com que o Marítimo procurou discutir o encontro mesmo quando isso aumentava o risco.
Van der Gaag deixou a mesma ideia por outro caminho.
Não quis que o 0-3 apagasse aquilo que viu durante parte significativa do jogo.
E encontrou nas bancadas um sinal especialmente importante.
Recordou períodos anteriores em que receber o Benfica nos Barreiros podia dar a sensação de jogar fora e destacou a presença e o apoio maritimistas desta vez.
«Estou a sentir uma onda dos maritimistas.»
Foi esse o compromisso que deixou para lá desta derrota.
Um Marítimo que vai lutar.
O Benfica saiu com três golos, três pontos e a baliza novamente intacta.
Marco Silva ficou satisfeito precisamente porque nem tudo correu como queria.
Quando foi necessário jogar melhor, a equipa jogou.
Quando teve de ser compacta, foi.
E quando o jogo deixou de permitir beleza, encontrou outra maneira de ganhar.















