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Kevin Lamour deixa a FIFA semanas depois de acusar Infantino de «enganar» a estrutura

Diretor de operações contestou publicamente o plano para abrir a investidores privados parte do negócio dos Mundiais, entretanto abandonado. Carlos Cordeiro já se tinha demitido pela mesma polémica.

Kevin Lamour deixou o cargo de diretor de operações da FIFA, semanas depois de ter feito uma das mais duras críticas públicas surgidas dentro da própria organização à liderança de Gianni Infantino. A FIFA confirmou que a relação laboral terminou a 17 de agosto, mas não estabeleceu oficialmente uma relação causal entre a saída e as declarações do dirigente contra o projeto FIFA Forward Enterprise.

Lamour tinha rompido o silêncio no início do mês, acusando Infantino de ter «enganado» funcionários da FIFA sobre um plano que previa criar uma nova estrutura comercial e abrir a investidores privados uma participação nos ativos ligados aos Mundiais e a outras competições. Classificou a iniciativa como «o projeto de uma só pessoa» e defendeu que os responsáveis políticos do futebol deveriam travá-la.

O projeto acabou por ser abandonado depois de provocar forte oposição dentro e fora da FIFA. A proposta previa a criação de uma subsidiária comercial avaliada em cerca de 20 mil milhões de dólares e a possibilidade de vender uma participação minoritária a investidores privados, uma alteração profunda na forma como a organização exploraria comercialmente algumas das suas competições mais valiosas.

Ao tornar pública a contestação, Lamour reconheceu que estava a colocar o próprio cargo em risco. «Se isso significar que perco o meu emprego, que seja», afirmou, acrescentando que aceitaria essa consequência por considerar necessário manifestar a sua oposição.

A FIFA limitou-se agora a confirmar o fim da relação profissional, agradecendo a Lamour os dois anos de serviço e anunciando que não faria mais comentários sobre o assunto. O antigo diretor de operações já tinha trabalhado com Infantino na UEFA antes de integrar a estrutura dirigente do organismo mundial.

A saída aprofunda uma crise interna que já tinha provocado outra baixa de peso. Carlos Cordeiro, conselheiro sénior de Infantino e antigo presidente da federação norte-americana, demitiu-se no final de julho por discordar do mesmo projeto, declarando não poder permanecer ao lado de uma proposta que envolvesse a venda de uma participação no negócio do Mundial.

A contestação ultrapassou entretanto a estrutura administrativa da FIFA. Confederações como UEFA, CONCACAF e AFC manifestaram oposição ao plano, aumentando a pressão sobre Infantino e levando o presidente da FIFA a retirar uma proposta que procurava introduzir capital privado numa parte central do negócio do organismo.

Lamour tornou-se, assim, a segunda figura de relevo a abandonar a estrutura na sequência da polémica. A FIFA não diz que foi afastado pelas críticas, mas a saída concretiza a possibilidade que o próprio dirigente tinha admitido quando decidiu tornar pública a sua oposição: perder o cargo por contestar um projeto que considerava incompatível com a forma como o futebol mundial deveria ser governado.