O FC Porto saiu de Vila do Conde com seis pontos em duas jornadas e mais um triunfo por 2-0, mas Francesco Farioli recusou transformar o arranque perfeito numa declaração de obra concluída. O treinador valorizou sobretudo o resultado, reconheceu que a equipa ainda tem «muitas áreas por melhorar» e encontrou em Nehuén Pérez o símbolo mais humano da noite.
«Podíamos ter gerido alguns momentos de uma melhor maneira, mas fomos eficazes», reconheceu Farioli. O italiano sabia que encontraria uma equipa física e organizada e considerou que o FC Porto nem sempre controlou o encontro da forma pretendida. Ainda assim, sublinhou aquilo que já se repete nas duas primeiras jornadas: a capacidade para resolver os jogos e não sofrer.
A história de Nehuén foi a que mais tocou o treinador. Na quinta-feira, Farioli tinha chamado o argentino ao gabinete para lhe perguntar se estaria disponível para ganhar minutos na equipa B caso não fosse utilizado em Vila do Conde. A resposta foi afirmativa: queria jogar, recuperar ritmo e continuar a melhorar fisicamente.
Um dia depois, Martim Fernandes lesionou-se. Alberto Costa ainda estava condicionado. Nehuén passou de possível candidato a minutos na equipa B para titular da equipa principal.
E marcou.
«Quando fazes as coisas bem, o karma aparece», resumiu Farioli. O treinador disse estar «feliz a triplicar»: pelo regresso, pelo trabalho do jogador e pelo prémio traduzido no golo que abriu a vitória.
Para Nehuén, o momento teve um significado ainda mais profundo. «Depois de um ano pessoal muito duro, foram meses bastante longos», confessou. O argentino voltou à titularidade e marcou no mesmo estádio onde já tinha faturado anteriormente.
A celebração explicou parte do que não cabia nas estatísticas. Assim que marcou, correu para junto do banco à procura dos profissionais que o acompanharam durante a recuperação. «Sem eles, isto não teria sido possível», afirmou, agradecendo a quem, nas suas palavras, se dedica aos jogadores «24 horas».
Também não colocou qualquer reserva à posição em que foi utilizado. Central de formação, apresentou-se como lateral-direito e deixou a hierarquia das posições atrás da necessidade coletiva: «Neste FC Porto tens de te adaptar onde for preciso.» A disponibilidade, garantiu, é total.
Farioli teve ainda palavras para Deniz Gül, que voltou a trabalhar muito sem conseguir marcar e viu o poste negar-lhe um golo. O treinador pediu continuidade e confiança: acredita que, mantendo o trabalho, a eficácia acabará por aparecer.
Do lado do Rio Ave, a leitura não passou por reconhecer uma superioridade absoluta do adversário. Sotiris Silaidopoulos considerou que a sua equipa criou problemas ao campeão, sobretudo durante a primeira parte, e identificou nas bolas paradas a primeira grande diferença entre os conjuntos.
«O FC Porto foi a melhor equipa em bolas paradas», afirmou. O Rio Ave tinha preparado esse momento do jogo, mas sofreu precisamente num canto e voltou a ver a bola entrar numa segunda situação semelhante, posteriormente anulada por fora de jogo.
Para o treinador grego, o segundo fator apareceu mais tarde. A partir dos 65 minutos, a energia da sua equipa caiu e a profundidade dos dois plantéis tornou-se evidente. Silaidopoulos escolheu uma imagem literária para explicar a diferença: seria como tentar escrever um livro tendo Ernest Hemingway a escrever do outro lado.
O treinador retirou, ainda assim, argumentos para o futuro. Gostou da coragem, da pressão e da forma como o Rio Ave procurou jogar de frente para o adversário, além da integração de jovens provenientes da formação. O problema é que as boas sensações ainda não produziram pontos.
Tamás Nikitscher falou precisamente dessa urgência. O médio destacou o trabalho e a luta da equipa, mas repetiu a ideia que começa a ganhar peso depois de duas derrotas: «Temos de ganhar.» Para o húngaro, já não basta mostrar competitividade; é necessário oferecer aos adeptos a primeira vitória.
No final, as duas equipas saíram dos Arcos com diagnósticos diferentes. O Rio Ave acredita que compete melhor do que os zero pontos sugerem e procura transformar coragem em eficácia. O FC Porto leva resultados quase imaculados, mas o próprio treinador avisa que ainda há espaço para crescer.
Entre as duas leituras ficou Nehuén Pérez. Um jogador que entrou no onze por causa da lesão de um companheiro e terminou a noite como homem do jogo. Às vezes, o futebol também sabe devolver.















