Há derrotas explicadas pelo que uma equipa não consegue fazer. Esta explica-se sobretudo por aquilo que o Famalicão fez a si próprio. A equipa de Carlos Carvalhal teve mais bola, dominou quase toda a segunda parte, obrigou o Marítimo a defender cada vez mais perto de Alfonso Pastor e aproximou-se várias vezes do 2-1. Mas ofereceu aos madeirenses duas situações que não nasceram da construção ofensiva adversária e perdeu ambas. Bouzaidi castigou a primeira, aos 21 minutos. Boakye castigou a segunda, aos 90+4. Entre uma e outra, o Famalicão jogou mais. No marcador, isso valeu menos.
O reencontro dos treinadores acrescentava uma pequena ironia histórica. Carlos Carvalhal e Mitchell van der Gaag estão ambos profundamente ligados ao Marítimo, embora não tenham formado, como chegou a ser referido, uma relação de treinador e jogador na Madeira. Quando Carvalhal comandou a equipa principal em 2009, Van der Gaag já tinha terminado a carreira de futebolista e trabalhava na estrutura técnica maritimista; acabaria precisamente por suceder ao português no comando da equipa principal em setembro desse ano.
Dezassete anos depois, encontraram-se em bancos opostos.
Carvalhal fez duas alterações relativamente ao empate da estreia com o Estoril: Paulo Moreira e Óscar Aranda entraram para os lugares de Gil Dias e Pedro Santos. Van der Gaag escolheu o caminho contrário e repetiu integralmente o onze que vencera o Casa Pia.
Foi o Marítimo, aliás, a criar a primeira grande oportunidade. Aos quatro minutos, Igor Julião cruzou e Martín Tejón apareceu para finalizar, obrigando Carevic a uma intervenção de grande nível. O aviso não perturbou o Famalicão, que respondeu empurrando os insulares para uma sucessão de três cantos.
À terceira tentativa, marcou.
Aos nove minutos, Óscar Aranda colocou a bola na área e Finn van Breemen apareceu praticamente sem oposição para cabecear para o 1-0. O Marítimo tinha gente suficiente na zona defensiva, mas não controlo suficiente sobre o central. Pastor não podia corrigir aquilo que já tinha falhado antes do remate.
A vantagem parecia colocar o jogo onde o Famalicão queria. Não durou muito.
Aos 21 minutos surgiu o primeiro dos «dois brindes» de que Carvalhal falaria depois. Rodrigo Pinheiro executou um lançamento lateral para Carevic numa zona e num contexto em que a margem para errar era mínima. Butzke pressionou, o guarda-redes falhou o alívio e o avançado maritimista ficou com a bola. Rematou ao poste. Simo Bouzaidi chegou primeiro à recarga.
1-1.
É importante separar o mérito do aproveitamento da origem da oportunidade. O Marítimo pressionou e Bouzaidi acompanhou corretamente o lance, mas a possibilidade de marcar nasceu de uma decisão e execução deficientes do Famalicão numa situação que aparentemente estava controlada.
Foi precisamente esse tipo de erro que irritou Carvalhal.
«Foram dois erros que se pagaram caro, dois brindes, sem dúvida», assumiria mais tarde. O treinador viu ainda outro problema na primeira parte: perdas de bola em zonas e situações pouco habituais e um posicionamento ofensivo que não permitia à equipa reagir adequadamente quando perdia a posse.
A partida entrou depois numa fase mais repartida. Aranda ainda encontrou Sorriso numa combinação promissora antes da meia hora, mas o extremo não conseguiu dar sequência. Tejón respondeu aos 32 minutos com um remate por cima e Sorriso fez o mesmo aos 40.
O intervalo chegou com igualdade no resultado e com igualdade suficiente no jogo para que o 1-1 não parecesse deslocado.
Carvalhal pensava de maneira diferente sobre a exibição da sua equipa.
E mostrou-o antes de voltar a falar.
Pedro Bondo, Aranda e Paulo Moreira ficaram no balneário. Leny Meyer, Pedro Santos e Gil Dias entraram. Três alterações simultâneas não eram apenas renovação de jogadores; eram uma mensagem sobre aquilo que o treinador considerara insuficiente nos primeiros 45 minutos.
A resposta foi imediata.
O Famalicão passou a instalar-se mais alto, acelerou a circulação e conseguiu encostar progressivamente o Marítimo à própria área. Gil Dias deu largura e profundidade, Pedro Santos acrescentou presença em zonas interiores e Sorriso começou a encontrar condições para receber mais vezes em situação de desequilíbrio.
Aos 54 minutos surgiu a oportunidade que melhor representa a segunda parte. Gil Dias cruzou, Sorriso cabeceou e Alfonso Pastor respondeu com uma defesa extraordinária.
Nove minutos depois, Sorriso voltou a testar o guarda-redes.
O Famalicão tinha passado de uma primeira parte irregular para um domínio territorial evidente. Mas existe uma diferença entre ter o adversário perto da área e conseguir entrar nessa área em condições para finalizar. Foi aí que o Marítimo começou a construir outra espécie de mérito.
Van der Gaag chamou-lhe depois «saber sofrer».
Não tentou apresentar a segunda parte como uma superioridade que não existiu. Reconheceu que o Famalicão entrou mais forte e que a qualidade dos minhotos empurrou a sua equipa para trás. A defesa do treinador foi outra: uma equipa também precisa de saber sobreviver quando o jogo deixa de lhe pertencer.
«Saber sofrer também é uma qualidade», resumiu.
O Marítimo baixou linhas, reduziu o espaço entre setores e colocou praticamente toda a equipa atrás da bola. Não era o plano mais ambicioso, mas ajustava-se ao que o jogo lhe estava a impor.
Carvalhal percebeu o mesmo fenómeno do lado oposto. «Não vou dizer que foi avassaladora», admitiu sobre a segunda parte do Famalicão, precisamente porque atacar onze jogadores colocados perto da própria área reduz os espaços e transforma cada metro de progressão num problema.
Foi uma superioridade real, mas paciente, não uma avalanche.
Aos 73 minutos, Van der Gaag renovou o ataque com Bamba e Boakye para os lugares de Tejón e Butzke. Carvalhal respondeu lançando Abubakar por Koutsias.
A entrada de Boakye parecia, nesse momento, sobretudo uma tentativa de oferecer capacidade física e velocidade para alguma transição ocasional. Acabaria por decidir o encontro.
Antes disso, o Marítimo fechou-se ainda mais. Tomás Tavares substituiu Bouzaidi para os últimos dez minutos e o bloco insular recuou mais alguns metros. Sorriso, que continuava a ser o jogador mais ameaçador do Famalicão, acabou por sair aos 85 minutos em dificuldades físicas, dando lugar a Beney.
Mesmo sem ele, os minhotos continuaram a procurar.
Aos 87 minutos, Gil Dias cruzou à procura de Abubakar, que não conseguiu o desvio. O Marítimo respondeu através de Bamba, com Carevic a segurar. Van der Gaag gastou as últimas substituições aos 88, lançando Ayuma e Szalai, e no minuto seguinte Pedro Santos tentou de fora da área. A bola passou muito perto do poste.
Tudo indicava que o Marítimo tinha sobrevivido para conquistar um ponto.
Carvalhal admitiu mesmo que já estava frustrado com o empate.
Então chegou o segundo brinde.
Aos 90+4, Léo Realpe tentou afastar uma bola e acertou em Van Breemen. O ressalto caiu em zona frontal e Boakye apareceu antes de qualquer correção defensiva. Rematou de primeira e bateu Carevic.
1-2.
O jogador que entrara para tentar dar ao Marítimo uma saída para o contra-ataque acabou por marcar sem precisar de uma transição organizada. Bastou estar desperto no momento em que o adversário voltou a criar perigo contra si próprio.
Van der Gaag não fugiu à componente aleatória da jogada. «Talvez hoje tenhamos tido sorte nesse aspeto», reconheceu. Mas juntou-lhe imediatamente a sua leitura causal: a sorte encontrou uma equipa que tinha trabalhado e sofrido durante toda a segunda parte para continuar viva no encontro.
Carvalhal viu a mesma jogada pelo outro lado. «Num golpe de sorte para o adversário e de azar para nós, acabámos por sofrer.»
As duas frases não são incompatíveis.
O ressalto que colocou a bola à disposição de Boakye é fortuito. O erro de Realpe que o provoca não é. E a presença do avançado na zona onde a bola ficou disponível também não.
É assim que um resultado aparentemente contraditório se torna explicável.
O Famalicão foi melhor na segunda parte e fez o suficiente para se aproximar da vitória. O Marítimo não conseguiu controlar esse período, mas conseguiu impedir que o domínio se transformasse em golo. E quando recebeu duas ofertas durante 90 minutos, converteu as duas.
A arbitragem de Miguel Nogueira não surge, na informação pública disponível sobre o encontro, como fator explicativo do resultado. Não houve reclamações dos treinadores centradas em grandes penalidades, expulsões ou na validade dos três golos, nem foi possível encontrar, até ao momento desta atualização, análises técnicas publicadas que identifiquem uma decisão de campo ou do VAR com influência direta no 1-2. Por isso, não existe base sustentada para transformar a arbitragem num elemento causal da derrota ou da vitória.
Os cinco minutos de compensação da segunda parte acabaram, ironicamente, por ter influência apenas no sentido mais literal: permitiram que o jogo continuasse tempo suficiente para o erro de Realpe e o golo de Boakye aos 90+4. Não é a mesma coisa que dizer que a decisão arbitral determinou o desfecho. Foi dentro do tempo concedido que o Famalicão voltou a falhar.
O resultado produz ainda duas trajetórias opostas no início da Liga.
O Famalicão continua sem vencer e soma apenas um ponto em duas jornadas. A qualidade mostrada depois do intervalo oferece a Carvalhal matéria para construir, mas os erros individuais impedem que essa evolução se traduza na classificação.
O Marítimo leva seis pontos em seis possíveis no regresso à I Liga. Van der Gaag recusa, porém, qualquer entusiasmo classificativo que altere a dimensão do objetivo. «O nosso objetivo é muito simples: a manutenção, nem mais nem menos.»
A prudência é coerente com o ponto de partida. O treinador regressou neste verão a um clube onde foi jogador durante cinco temporadas, capitão e mais tarde treinador, agora para liderar a consolidação dos madeirenses após a promoção.
Seis pontos não garantem permanência. Mas permitem começar a construí-la.
E talvez a principal diferença entre as duas equipas esteja precisamente nessa capacidade de converter aquilo que o jogo oferece. O Famalicão produziu muito e recebeu pouco. O Marítimo produziu menos durante grande parte do segundo tempo e levou tudo.
Carvalhal chamou-lhes brindes.
Van der Gaag chamou-lhe saber sofrer.
O resultado precisa das duas explicações.















