O Sporting venceu o Vitória SC por 3-2, mas há um número que explica o jogo melhor do que qualquer impressão visual: depois de Altimira marcar o 3-0, os leões não fizeram mais um único remate. Entre o último disparo e o apito final decorreram 59 minutos. O jogo que começou como uma demonstração de superioridade acabou como uma defesa prolongada da vantagem.
Durante a primeira parte, nada apontava para esse desfecho. Aos nove minutos, Ioannidis resistiu à pressão e encontrou Flávio Gonçalves para o primeiro golo oficial do jovem de 19 anos pela equipa principal. Aos 22, Geny Catamo inventou um chapéu junto à linha antes de servir Ioannidis para o 2-0. Aos 41, o grego voltou a participar na jogada e Altimira rematou de longe para o terceiro.
O Sporting não estava apenas a marcar. Pressionava alto, recuperava rapidamente e mantinha o Vitória suficientemente longe da própria baliza para que cada perda de bola pudesse ser corrigida antes de se transformar em perigo. A vantagem era consequência do domínio.
Foi essa relação que se inverteu depois do intervalo. Tiago Margarido fez três alterações, aumentou a agressividade da equipa e encontrou maior presença no meio-campo ofensivo. Ao mesmo tempo, o Sporting perdeu energia na pressão e começou a recuar. Não deixou de atacar porque sofreu; começou a sofrer porque deixou progressivamente de atacar e de recuperar a bola onde antes a recuperava.
Samu reduziu aos 66 minutos. Dois minutos depois, Zalazar perdeu a bola junto à área, Tony Strata cruzou e Ndoye ganhou pelo ar para fazer o 3-2. O que parecia um jogo encerrado passou, em dois minutos, a carregar a memória da primeira jornada.
Na Reboleira, o padrão tinha sido semelhante. O Sporting fez o 2-0 através de Ioannidis e esse foi também o seu último remate, então a 36 minutos do final. O Estrela da Amadora marcou duas vezes e empatou. Em Alvalade, o último remate apareceu ainda mais cedo, embora a margem de três golos tenha acabado por ser suficiente.
A repetição dá outra dimensão ao problema. Não se trata apenas de sofrer golos em fases menos conseguidas. Nos dois primeiros jogos da Liga, o Sporting deixou de ameaçar a baliza adversária durante largos períodos depois de alcançar uma vantagem confortável. Quando desaparece a ameaça ofensiva, o adversário pode subir linhas com menos risco; quando sobe, empurra o Sporting para trás; e cada golo sofrido aumenta a tensão de uma equipa que já conhece a consequência desse caminho.
Ioannidis confirmou que essa memória entrou no jogo ao admitir que os jogadores sentiram medo do que acontecera uma semana antes. Rui Borges falou em desconfiança e perda de energia. As duas explicações não se excluem: a quebra física e tática abriu espaço ao Vitória, e o 3-1 transformou depois essa perda de controlo numa questão emocional.
O Vitória merece parte substancial da explicação. As alterações de Tiago Margarido aumentaram a pressão, a equipa passou a ganhar duelos e atacou a área com muito mais gente. O Sporting não caiu sozinho; foi empurrado. Mas uma equipa que pretende lutar pelo título não pode responder a essa mudança desaparecendo ofensivamente durante uma parte inteira.
Desta vez, a terceira vantagem resistiu. As entradas de jogadores frescos permitiram guardar melhor a bola nos minutos finais e o desgaste também retirou força à perseguição vimaranense. O Sporting não recuperou o futebol da primeira parte; conseguiu apenas impedir o terceiro golo.
Os quatro pontos nas duas primeiras jornadas escondem, portanto, uma questão mais importante do que a classificação de agosto. O Sporting já demonstrou que sabe acelerar, criar e marcar. O que ainda não demonstrou é conseguir continuar a jogar quando acredita que já fez o suficiente. E os 59 minutos sem um remate dizem, de forma quase demasiado clara, onde começa o problema.















