O Fontelo esperou mais de 37 anos para voltar a receber futebol da I Liga e precisou apenas de um quarto de hora para perceber uma das crueldades do regresso: neste nível, um erro pode valer um jogo inteiro. O Académico de Viseu ofereceu ao Santa Clara a oportunidade que Gonçalo Paciência transformou no único golo da tarde e passou os restantes 75 minutos a tentar recuperar uma vantagem que os açorianos protegeram com a maturidade de quem já conhece estas batalhas.
A festa merecia outro resultado. Desde 21 de maio de 1989 que o Fontelo não assistia a um encontro do Académico entre os grandes. Cerca de seis mil pessoas encheram as bancadas para devolver à cidade uma rotina perdida durante mais de três décadas. Depois do empate a dois golos na Luz, na jornada inaugural, havia também razões desportivas para acreditar que o regresso a casa poderia prolongar o entusiasmo.
Mas o Santa Clara percebeu melhor aquilo que o jogo pedia.
A equipa açoriana não precisou de dominar a bola para dominar o espaço. Organizada defensivamente, permitiu ao Académico ter posse em zonas onde essa posse pouco ameaçava Lucas França e procurou esperar pelo erro. A estratégia encontrou recompensa muito cedo.
Aos 14 minutos, Rúben Pereira falhou o domínio e deixou a bola exposta junto a Sorriso. Tentou corrigir o erro com um carrinho, chegou tarde e derrubou o extremo dentro da área. A grande penalidade nasceu menos de uma construção ofensiva do Santa Clara do que de uma precipitação defensiva viseense. Gonçalo Paciência pegou na bola e fez o resto: remate colocado junto ao poste, Ewerton adivinhou o lado, mas não chegou. 0-1.
Nem o próprio treinador do Académico procurou refúgio na arbitragem. Bruno Pinheiro assumiu que o penálti resultou de «uma falha nossa» e resumiu a consequência numa frase que explica praticamente todo o encontro: «Demos uma parte de avanço e isso paga-se caro.»
Porque o problema não terminou no erro de Rúben Pereira. O golo poderia ter acordado o Académico; aconteceu quase o contrário. A equipa continuou com dificuldade para acelerar a circulação, encontrar linhas de passe interiores e levar presença suficiente às proximidades da área. O jogo tornou-se físico, fragmentado por duelos, faltas e interrupções, exatamente o território em que a vantagem mínima mais convinha aos visitantes.
Quando o perigo surgiu, voltou a pertencer sobretudo ao Santa Clara. Paciência ainda ameaçou num pontapé de bicicleta e, já perto do intervalo, voltou a aparecer nas imediações da baliza para rematar às malhas laterais. Vinícius Lopes também testou a atenção viseense. Do outro lado, Kahraman respondeu com um remate à meia-volta que passou ligeiramente por cima.
Chegou então o intervalo e Bruno Pinheiro mexeu de uma forma que parecia contraditória: lançou dois defesas, Pedro Barcelos e Nikos Michelis, quando precisava de atacar mais. A explicação estava menos nas posições nominais do que no efeito pretendido. Mais energia e segurança atrás permitiriam empurrar o bloco para a frente.
E resultou.
O Académico regressou mais agressivo, jogou mais perto da área açoriana e começou finalmente a obrigar o Santa Clara a defender aquilo que antes controlava à distância. Zamora encontrou espaço para um remate forte que Lucas França teve de afastar e João Guilherme tentou depois uma finalização em arco que passou perto da baliza.
A partir daí, o jogo deixou de ser sobre quem jogava melhor e passou a ser sobre quem lidava melhor com a circunstância. O Académico carregava com a urgência de uma cidade inteira atrás dele. O Santa Clara defendia um golo e sabia que não precisava de outro para levar três pontos para os Açores.
Foi aí que apareceu a diferença de maturidade.
Os visitantes encurtaram espaços, mantiveram solidariedade defensiva e aceitaram sofrer sem perder organização. O Académico continuou a empurrar, lançou mais jogadores e chegou aos últimos minutos ainda com possibilidade real de resgatar o empate. João Guilherme, já no período de compensação, apareceu de cabeça num cruzamento de Robinho, mas o golo que o Fontelo procurava não chegou.
Petit reconheceu que a sua equipa foi mais feliz nos derradeiros minutos do que tinha sido uma semana antes. «Soubemos sofrer, fomos solidários e acabámos por vencer», sintetizou o treinador, admitindo que o Académico teve situações para empatar.
Essa capacidade para sofrer também conta como qualidade. Não tem o brilho de uma combinação ofensiva nem a evidência de uma oportunidade de golo, mas separou as duas equipas. O Académico fez uma segunda parte suficiente para justificar a discussão do resultado; o Santa Clara fez um jogo suficientemente adulto para não precisar de ser superior durante 90 minutos.
E teve Gonçalo Paciência.
O capitão açoriano leva três golos em duas jornadas e marcou, até agora, todos os golos do Santa Clara neste campeonato. Depois do bis na ronda inaugural, voltou a decidir e associou a sequência individual a um número coletivo histórico: foi a 100.ª vitória do Santa Clara na I Liga.
Para o Académico sobra uma derrota que não apaga aquilo que já demonstrou no regresso ao principal escalão, mas acrescenta uma aprendizagem à surpresa conseguida na Luz. Contra o Benfica, a equipa mostrou que pode competir com quem teoricamente tem muito mais. Frente ao Santa Clara, percebeu o reverso dessa conclusão: se pode competir com qualquer um, também não pode oferecer nada a ninguém.
O Fontelo voltou à I Liga 37 anos depois. A festa regressou, o público regressou e o Académico também. Faltou apenas aquilo que o Santa Clara soube guardar melhor do que os viseenses souberam procurar: o resultado.















