Vinte e cinco anos depois, o 11 de Setembro continua a ser contado sobretudo pelas 2.977 pessoas mortas nos quatro ataques coordenados da Al-Qaeda aos Estados Unidos e por tudo aquilo que mudou depois deles. Para o futebol português, ficaram também duas histórias menores perante a dimensão da tragédia, mas reveladoras da estranheza daquele dia: o Boavista entrou em campo em Anfield quando Nova Iorque ainda ardia e o Sporting chegou à Dinamarca num dos últimos voos admitidos antes de o espaço aéreo fechar.
Às 8h46 de Nova Iorque, 13h46 em Portugal continental, o primeiro avião atingiu a Torre Norte do World Trade Center. Dezassete minutos depois, um segundo aparelho embateu na Torre Sul e eliminou qualquer possibilidade de se tratar de um acidente. Outro avião atingiria o Pentágono e o voo 93 cairia na Pensilvânia depois de passageiros e tripulantes reagirem aos sequestradores.
Na Europa, o calendário desportivo ficou subitamente sem importância, mas nem todos os jogos daquele dia foram cancelados.
O Boavista estava em Liverpool para a estreia na Liga dos Campeões, como campeão português, e durante horas nem os jogadores sabiam se haveria partida. Houve.
Antes do encontro cumpriu-se um minuto de silêncio e, três minutos depois do apito inicial, Elpídio Silva ganhou a bola a Sami Hyypiä e marcou em Anfield. Michael Owen empatou aos 29 minutos e o 1-1 resistiu até ao fim.
Elpídio recorda o resultado como um sonho realizado e o contexto como exatamente o contrário. Durante aproximadamente duas horas, o futebol permitiu à equipa concentrar-se noutra coisa. Depois voltou a realidade, incluindo uma viagem de regresso marcada por segurança reforçada e pela incerteza que se instalara em quase todo o transporte aéreo.
O Sporting viveu o mesmo dia de maneira diferente.
A equipa de Laszlo Bölöni viajava para a Dinamarca, onde deveria defrontar o Midtjylland a 12 de setembro para a Taça UEFA. A comitiva só compreendeu totalmente aquilo que estava a acontecer depois da aterragem, quando os telemóveis começaram a receber chamadas de Portugal e as televisões passaram a repetir as imagens de Manhattan.
Segundo a memória de quem acompanhou a equipa, aquele foi o último voo autorizado a entrar no espaço aéreo dinamarquês antes do encerramento.
O Sporting ainda treinou nessa tarde, mas o jogo do dia seguinte acabou adiado. A equipa regressou a Lisboa e voltou à Dinamarca uma semana depois.
A partida realizou-se a 20 de setembro e terminou com vitória leonina por 3-0. Babb, Beto e Jardel marcaram. Na segunda mão, o Sporting voltou a vencer, por 3-2, e seguiu em frente.
O Boavista faria também uma campanha europeia memorável, qualificando-se na Champions num grupo em que deixou para trás Borussia Dortmund e Dínamo Kiev.
Esses resultados pertencem à história do futebol.
O dia em que começaram pertence a outra escala.
Vinte e cinco anos depois, o Memorial de Nova Iorque continua a ler os nomes das vítimas para que uma geração que já nasceu depois dos ataques saiba por que razão o mundo mudou naquela manhã.
O futebol português estava lá, de forma quase acidental, a assistir à mudança.















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