A Liga começou com 23 golos e cinco empates. E os cinco tiveram uma característica comum: houve sempre uma equipa que esteve a ganhar e não conseguiu conservar a vantagem. Sporting, Benfica, SC Braga, Santa Clara e Famalicão deixaram fugir pontos depois de passarem pela frente. Entre os três grandes, só o FC Porto ganhou e saiu da primeira jornada já com dois pontos de vantagem sobre os rivais de Lisboa.
O campeão venceu o Alverca por 2-0, num jogo decidido por dois penáltis sobre André Silva. Luís Godinho não assinalou nenhum deles em campo. Nas duas situações foi chamado pelo VAR ao monitor e corrigiu a decisão. As análises técnicas convergiram no essencial: os dois penáltis foram bem marcados. A discussão portista ficou, por isso, noutro lugar: sem VAR, nenhum teria existido.
E com Luís Godinho o presente depressa chamou o passado. A relação de desconfiança do FC Porto com o árbitro não nasceu nesta jornada. Em 2018, o próprio clube acusou-o de ter «oferecido dois pontos ao Benfica» num Vitória de Setúbal-Benfica. Já em 2026, André Villas-Boas voltou a invocar o «registo histórico» do árbitro com os dragões. Desta vez, a tecnologia corrigiu duas decisões suas a favor do Porto. O campeonato começou e uma velha frente da guerra verbal do futebol português reapareceu imediatamente.
No relvado, o Porto também confirmou uma identidade conhecida. Não precisou de uma exibição exuberante para ganhar. Foi pragmático, defensivamente sólido e eficaz nos momentos que decidiram o encontro. É uma receita que Farioli já utilizou com sucesso na época passada e que voltou a aparecer logo na estreia: controlar o essencial, reduzir o risco e não sofrer.
Sporting e Benfica fizeram o contrário: tiveram futebol para ganhar e deixaram o resultado escapar.
Na Reboleira, o Sporting chegou ao 0-2 frente ao Estrela e parecia ter o jogo controlado. Criou muito, rematou 15 vezes, oito à baliza, e produziu 2,52 golos esperados. Zalazar marcou e assistiu Ioannidis. Depois, a equipa perdeu capacidade para controlar aquilo que tinha construído e sofreu aos 72 e 84 minutos. Rui Borges chamou ao 2-2 um aviso. É uma palavra adequada para uma equipa que mostrou facilidade em criar vantagem e dificuldade em viver com ela.
Na Luz, o Benfica também esteve duas vezes na frente e acabou empatado 2-2 com o Académico de Viseu. Pavlidis marcou primeiro, Rúben Pereira respondeu; Prestianni fez o segundo, André Clóvis voltou a empatar. Os encarnados acertaram três vezes nos ferros e tiveram em Prestianni uma das figuras da ronda, com um golo, uma assistência e sucessivos desequilíbrios.
Mas o dado que fica é outro: o Académico regressou ao principal escalão 37 anos depois e saiu da Luz com um ponto. E o Benfica voltou a começar a Liga sem ganhar. O empate prolongou para quatro épocas consecutivas uma sequência de estreias sem vitória.
Havia ainda uma particularidade pouco comum: a Luz estava sem público devido a um castigo relacionado com utilização de pirotecnia em jogos de 2022/23. Três anos depois, uma infração do passado condicionou a estreia de uma nova época e impediu também os adeptos do Académico de acompanhar no estádio o regresso do clube à I Liga após quase quatro décadas. Marco Silva recusou usar a ausência de público como desculpa. Com as oportunidades criadas, o Benfica tinha obrigação de resolver melhor o jogo.
O SC Braga deixou dois pontos em Moreira de Cónegos de maneira igualmente frustrante. Marcou primeiro por Fran Navarro, sofreu o empate, voltou à vantagem através de Pau Víctor e permitiu o 2-2 aos 90+1, por João Veloso. Teve mais bola, mais remates e mais presença ofensiva, mas não conseguiu transformar controlo territorial em controlo do resultado.
Em Guimarães aconteceu talvez o resultado estatisticamente mais estranho da ronda. O Vitória rematou 24 vezes; o Arouca, quatro. Os minhotos produziram 2,38 golos esperados contra apenas 0,31 dos visitantes. Ganhou o Arouca, 0-1. Barbero aproveitou uma das raras ocasiões e Arruabarrena, a organização defensiva e o desperdício vimaranense trataram do resto. Um daqueles jogos que lembram por que razão posse, remates e domínio ajudam a explicar futebol, mas não substituem o marcador.
Na Madeira, o Marítimo regressou à Liga com uma vitória, 1-0 ao Casa Pia. Raphael Guzzo marcou o golo, mas a equipa deixou um sinal interessante: mesmo com apenas 40 por cento de posse, rematou 16 vezes contra nove do adversário. O promovido não começou a temporada apenas preocupado em sobreviver.
O Gil Vicente bateu o Rio Ave por 1-0, com Héctor Hernández a decidir de penálti aos 87 minutos, quebrando uma série de sete encontros sem vencer os vilacondenses. Estoril e Famalicão empataram 1-1 depois de Koutsias colocar os minhotos na frente e Begraoui responder na segunda parte.
Nos Açores, o dérbi insular levou ao limite o padrão da jornada. Gonçalo Paciência marcou duas vezes em dois minutos e colocou o Santa Clara a vencer 2-0. Antes do intervalo, o Nacional já tinha recuperado: Liziero reduziu de penálti e Miguel Baeza fez o 2-2. Outra vantagem perdida, outra demonstração de que esta primeira ronda foi particularmente hostil para quem julgou ter o jogo resolvido.
A primeira fotografia da Liga ficou assim. O FC Porto começou pela consistência e aproveitou imediatamente os tropeções dos rivais. Sporting e Benfica produziram futebol para ganhar, mas não souberam proteger aquilo que construíram. O Braga descobriu o mesmo problema perto do fim. Arouca mostrou que a eficácia pode contrariar quase todas as estatísticas de um jogo. Marítimo regressou sem timidez. Académico, Estrela e Nacional recusaram aceitar derrotas que pareciam encaminhadas.
E a arbitragem lembrou outra característica do futebol português: nenhuma jornada começa verdadeiramente do zero. Os árbitros transportam decisões anteriores, os clubes guardam memórias, os rivais recuperam comparações e o VAR acrescenta agora uma nova camada a conflitos antigos.
Foram apenas os primeiros 90 minutos. Mas já houve futebol suficiente para perceber que esta Liga começou com muito mais do que uma tabela classificativa.














